terça-feira, 11 de outubro de 2011

do amor e da distância


Amo tanto o meu país que só me apetece ir-me embora, assim como temos o impulso de nos afastarmos das pessoas que amamos para não as vermos sofrer.
De cada vez que me vejo ao volante a percorrer este país (tanta, tanta, tanta estrada) encontro um recanto, uma paisagem, um monte, um vale, um por-do-sol magnífico e inesquecível como o da passada sexta feira. De cada vez que passo por uma praia, uma floresta, um rio,vejo algo de novo, puro e belo. De cada vez que viajo, volto e adoro o sol, a luz, o cheiro, tudo o que há de natureza neste país.
No entanto, neste momento, quero deixá-lo, porque já não consigo amar-lhe a decadência, a corrupção, a lama, a miséria, as vistas curtas, o bota-abaixo, a falta de dignidade e orgulho. Este país é um fado desgraçadinho de faca-e-alguidar em mil episódios, como as novelas que não suporto ver na televisão. Este país é um fresco coberto de graffity sem gosto. É um mendigo perfumado e de chapéu de coco com uma mala de marca (até os mendigos fantasiam por-se a andar). É um doctor Jeckyl e um Mr Hyde, é o Dorian Grey e o seu retrato ao mesmo tempo. Este país é "uma choldra", como diria o meu amigo Eça.
Assim, quanto mais amo a beleza desta terra, mais quero sair daqui, assim como que mantém inalterada a foto de alguém que amou há muitos anos e nunca mais viu. De longe, podia amar incondicionalmente este país, de perto, não.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Do pão e do circo


Diziam os romanos que ao povo é dar-lhe pão e circo e tantas e tantas vezes na história outros lhes seguiram o exemplo, às vezes com mais pão, às vezes com mais circo.
O que eu acho que é uma novidade é dar pão a troco de circo! Não vale a pena irem com um saco de carcaças para comprar um bilhete para um circo qualquer, lamento desiludir-vos. Eu estou a falar é da máquina de campanha de um certo partido que tem andado a distribuir saquinhos de sandes a quem for abanar bandeirinhas.
Mas é natural, estamos em crise e um pouco de solidariedade fica sempre bem, não é? Não. Primeiro porque não é solidariedade e depois porque parte da exploração da fome alheia. Não é natural, não é solidário, não é moral, nem é humano de duvido muito que seja politicamente correcto. É mais que revoltante é repugnante e discriminatório.
Já não lhes bastava terem enganado os velhinhos de Cabeceiras de Basto que no regresso de Fátima "passaram" por Lisboa (é que ficam mesmo em caminho) e foram postos a cabecear nos sofás do hotel Altis, agora são os imigrantes africanos, indianos e paquistaneses que são levados a comícios a troco de um saquinho de plástico com sandes e bebidas. Ora, se os velhinhos lá do norte não votam em Lisboa e os imigrantes não votam em lugar nenhum, que raio de apoiantes são estes? Poderiam ser virtuais, mas assim não eram vistos, podiam ser figurantes, mas assim ganhavam mais, podiam ser contratados, mas assim era preciso pagar impostos. São baratos, coloridos, empenhados, obedientes, não percebem português, são os votantes ideais só que... não votam!
Eu acho que é preciso descer muito baixo, ser muito inseguro e muito oportunista (ou muito transparente) para exibir a degradação social por baixo das bandeiras de um partido que (abençoadinho seja!) livra uns pobres desgraçados de um dia ou dois de fome (se forem poupadinhos pode ser que o pão dê) desde que finjam que são apoiantes. Isto não é tapar o sol com a peneira, é destapar o contentor e por-lhe uma bandeirinha em cima.
Agora não digam que eu sou contra os pobres imigrantes, não, sou contra o facto de lhes explorarem a fome e a necessidade, assim como que pendura a cenoura à frente do nariz do burro para o fazer correr. Sou contra o fabrico de multidões à pala da fome. Sou contra a manipulação e a passagem de atestados de estupidez a quem assiste como se as eleições fossem um campeonato de quem tem a claque maior. Uns andam lá pelo tacho, outros é plas sandochas.
Por falar em claques, já agora esses senhores podiam falar com o Paulo Futre e mandar vir um charter de Chineses para abanar bandeirinhas! Não digam que só lhes "casco", também dou alternativas! E para além de bilhetes para o oceanário podiam oferecer passes para as SCUT, descontos para a feira do livro do Porto e bilhetes para os festivais de verão.
Pasme-se! Para alguns fazer campanha eleitoral é dar pão a troco de um bocado de faz-de-conta.
Assim temos o pão, e compõe-se o circo mas os palhaços e os malabaristas são outros.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Íssimo, íssimo cansaço


Ah, meu velho Pessoa (na pessoa do seu heterónimo Álvaro de Campos) como nos compreendemos!!!

O superlativo cansaço. Tudo nos cansa, o trabalho, as notícias, as pessoas, a vida. Quem me dera deitar-me como um gato ao sol e dormir placidamente na minha animalidade repousada. Quem me dera ser estática e serena como uma árvore a quem alguem regasse nos dias de calor. Quem me dera ser a montanha inerte que vejo ao longe da janela. Quem me dera não pensar, não sentir, não escrever, não fazer contas, não ouvir e nem falar apenas por uns dias. Sim, porque não auto-suspender-me por uns dias? Entrar em hibernação ou em primaveração e deixar tudo passar: os horários, os papéis, as conversas, os discursos, as campanhas, tudo! Seria a suprema das felicidades e quando des-primaverasse podia maravilhar-me com as mudanças, as novidades, as flores novas, os pássaros recém-chegados, as novas ideias económicas, o obituário! Tudo com a roupagem brilhante da surpresa!

Pronto, já sei, era um desperdício de tempo. Mas não é um desperdício o tempo que passo afundada em papéis e grelhas de excell que não fazem a felicidade de ninguém? Não é um desperdício de sol, de energia, de imaginação, de alma?

Avaliando o custo-benefício, a papelada dá prejuízo. Mata as árvores, polui o ar e os rios, consome energia, consome a paciência, acumula pó, pesa que se farta e carboniza a alegria. E qual é o benefício disso? Nenhum, nenhum mesmo. Ao fim de um tempo, com sorte, acaba na reciclagem, com falta dela, num aterro sanitário. E assim acabam horas de trabalho - um desperdício.

Ah, como estou cansada! E se não estivesse tão cansada, era capaz de fazer uma revolução contra a papelada, pelo "tirem o alcatrão e plantem relva", pelo flower power!!! Mas é que estou tão cansada que até estar cansada me cansa!

quinta-feira, 24 de março de 2011

Um solitário vestindo Armani


Não me interpretem mal, eu não estou a falar dos anúncios Armani nem dos modelos na página oficial que me fizeram apetecer clicar no link "wishlist" e encomendar os próprios, com ou sem a roupa.

Não não não, é pena.

Falo do outro que não quero ver nem vestido nem pintado e Deus me livre de o ver despido!

Esse, esse em quem estão a pensar... o que não usa nome de família, o que veste italiano mas bajula alemão, o que tem tiques de ditador africano, é amigo do Kadafi e faz birrinhas, o "já foste"!(É sempre melhor ir vestindo Armani do que alguma cadeia espanhola com roupa made in Bangladesh!)

Agora voltando ao título, solitário está o homem cada vez mais (quem quer ser visto em má companhia?) embora alguns continuem a seguir a ovelha-chefe, ansiosos por ajudar a vestir a pele do lobo. E, convenhamos, temos pena de, em vez de o ver solitário, não o ver na solitária!

Já quanto ao vestir Armani, isso vem já do tempo em que era ministro. Ora, ainda que não tenha clicado na wishlist, que nunca ia passar de wish mesmo (com o meu salário comprava o saquinho de papel e olha lá!), eu bem sei quanto custa o-que-quer -que-seja com a etiqueta Armani, a não ser que seja comprado numa feira, fora das vistas da ASAE!

Assim, pensemos juntos, não provindo de uma das famosas abastadas famílias que há gerações (des)governam este país, com um salário de "engenheiro" na Covilhã e depois membro subalterno do governo, donde raio lhe vinha o pastel para as roupinhas Armani? Será que havia lojas Armani no Freeport com direito a cartão de descontos para cliente habitual? Não sei, estou a imaginar...Ou será que havia Armani a crédito com juros a vencer em dois-mil-e-qualquer-coisa, ou cursos da universidade independente em "como-aprender-a-vestir-Armani-numa-só-sessão-ao-domingo"?

Se alguém souber, avise, preciso desesperadamente de saber como se pode vestir haute couture com um vulgar salário de Portugal...

quinta-feira, 17 de março de 2011

O país do sol nascente


O Japão. Devo confessar que nunca me interessei muito pelo Japão. Fica lá do outro lado do mundo, vive da tecnologia, automatizado, "certinho": aborrecido. Aprecio a qualidade dos carros (embora prefira os alemães e suecos) e das Nikon e da Fuji e mais umas coisas do mundo tecnológico. De resto, um país rico que não me interessa.

Daí que não sei grande coisa sobre o Japão, tirando a capital e as bombas atómicas de Hiroshima e Nagazaki e os problemas de sucessão do imperador por uma menina (num país de topo em tecnologia, parece-me um total absurdo).

Primeiro o terramoto - ok, eles têm edifícios preparados para isso, no worries. A seguir o tsunami - aí já foi pior, mesmo com os alertas, acabou por se descobrir que o número de mortos era horrorosamente grande para um país tão evoluído. Por fim a ameaça nuclear - ah, não há crise eles têm lá a tecnologia toda, resolvem o problema.

Aí é que nos enganámos todos. Confiámos que o Japão, país de primeiríssimo mundo, organizado ao máximo, conseguisse resolver tudo. Mas não conseguem. Não conseguem prestar apoio aos desalojados como deve ser, não conseguem arrefecer os reactores e provavelmente não vão conseguir evitar um desastre nuclear de dimensões incalculáveis!

Bolas, afinal a tecnologia não resolve!

Bolas, um país que há sessenta e tal anos sofreu na pele o desastre nuclear devia estar melhor preparado!

Bolas, isto de ser rico não protege ninguém da natureza nem dos desastres!

Bolas, porque o Japão é rico, as pessoas não se sentem sensibilizadas, é difícil ter pena daquela gente!

Bolas, a riqueza e a tecnologia desumanizam!

Bolas, não gosto do Japão!

sábado, 12 de março de 2011

Portugal na Rua


Não é Abril, nem sequer primavera ainda...
Mas o povo voltou a sair à rua. Cada um pelas suas razões, alguns pelo passado, alguns pelo presente, todos pelo futuro. Os jovens, os pais, os avós, as crianças cujos pais não podem garantir-lhes um futuro.
Há gente de direita, de esquerda, de lado nenhum. Há gente das artes, da música, da educação, da política, do desemprego, do desespero. Há gente, gente, gente, POVO! O POVO!
Lembro-me das manifs a que fui, da emoção de subir a avenida, olhar para trás e ver gente, gente a perder de vista e a fraternidade, a união, os sorrisos, a voz do coração.
Canta-se o hino - a manifestação é por PORTUGAL, porque Portugal somos todos nós. E não só os Portugueses, mas os que amam e constroem Portugal.
Ah, como queria estar lá!!!!! Talvez ter ido me espantasse esta ansiedade e esta melancolia de ter medo do futuro, não do meu, mas deste país, dos meus amigos, dos meus alunos, dos meus sobrinhos, dos filhos que não terei.
Mas o povo saiu à rua. O povo não se cala e o povo há-de vencer de alguma forma.
Ao fim e ao cabo, estamos todos lá.
MEU POVO, ESTAMOS UNIDOS!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Pedras Parideiras


Diz a lenda que na Serra da Freita há pedras que dão à luz outras pedras. O povo chamou a essas rochas mágicas, pedras parideiras. Uma amiga geóloga explicou-me que essa magia se deve ao comum fenómeno da erosão. As pequenas pedras já lá estavam, apenas o efeito dos elementos as liberta.

A muitos quilómetros de distância, foram, na semana passada, as técnicas da assistência social retirar duas crianças a uma mãe. Uma em idade pré-escolar, e outra um bébé de meses. Face ao inevitável, a mãe lamentou-se:

- Como é que eu vou viver agora? O que será de mim?

Ah, imaginamos, como se vive sem os filhos. A dor, a perda, a impotência. Um coração partido. Porque nós não somos pedras.

Continuava a mulher:

- O que há-de ser de mim , agora SEM OS 250 EUROS DO ABONO?

Ah, agora a nossa incredulidade, a nossa dor, a nossa revolta...

Quanto a pedras parideiras, eu fico-me pelas da lenda.