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Ontem, eram mais de nove da noite, estava eu em pijama, prontinha para me meter na cama com um bom livro, ouvi uma criança chorar na rua. Só ouvia a criança, nenhum adulto. Ao fim de alguns minutos resolvi espreitar. Era um menino pequeno, 5, 6 anos que brincava na rua de cá para lá, falando para si próprio, aparentemente sozinho. Fiquei ali à espera de ver o adulto que o acompanhasse, o irmão mais velho, alguém.
Ao fim de algum tempo o menino continuava por ali. Sem uma camisola, um casaco, nada, a não ser um lenço que me lembrou Arafat que fazia esvoaçar na mão. Eram nove e meia, um frio de rachar e o miúdo andava por ali. Decerto gelado, sozinho, indefeso. Passaram-me mil histórias pela cabeça.
Vesti-me de novo, pus um gorro, meti o telemóvel e as chaves no bolso, desci as escadas e fui para a rua. Gelei assim que abri a porta. Não vi o miúdo, percorri as ruas ali perto. Nada. Voltei para trás, achei que alucinava. Mas não. Lá estava ele. De camisa de algodão e sozinho a brincar com um tubito de plástico. Aproximei-me devagar, falei com ele, perguntei se andava na escola, apresentei-me. Disse-me o nome, que andava no primeiro ano, o nome da professora. 6 anos, concluí. Estava gelado mas disse que não tinha frio. Sentei-me no muro a falar com ele. Disse-me que a mãe trabalhava num café ali perto. Mas o café era noutra rua. Limpei-lhe uma lágrima da face e ele disse que estava triste porque alguém lhe tinha batido no café. Fiz-lhe uma festa na cabeça e disse-lhe que podia ficar ali com ele mas ficava mais descansada se ele fosse para perto da mãe e que ia até lá com ele. Sorriu, um grande sorriso luminoso de criança e disse "então vamos por aquele lado que o caminho é mais curto". E saltitou à minha frente na noite gelada. A meio do caminho apareceu uma mulher que ralhou com ele por estar na rua com o frio. Disse-lhe que o ia levar à mãe e ela disse que o levava. O menino correu até à porta do café.
Voltei para casa gelada e com o coração apertado. Eram quase dez da noite. Durante mais de meia hora apenas eu me preocupara com aquele menino. Durante mais de meia hora ninguém o procurara.
Eu sei que meninos de seis anos fazem birras e fogem e não ligam ao frio. Sei que há mães que precisam de levar os filhos para um café à noite para poderem trabalhar. Mas também sei que uma mãe não perde o filho de vista por mais de meia hora à noite, por muito que esteja a trabalhar. Sei que a zona é aparentemente calma mas tem estrada, carros, duas fontes, cães vadios. Sei que como eu quis levá-lo à mãe (ou à GNR que era o plano B) qualquer pessoa podia levá-lo para longe, fazer-lhe mal.
Deitei-me com um sentimento de dever cumprido mas com o coração apertado, e o olhar triste daquele menino que queria ter levado comigo para o proteger, para o aquecer, para o amar. Quantos meninos andavam na rua àquela hora sem terem quem os amasse, ainda que fosse por meia hora? Quantos meninos mereciam o meu amor? E é esta questão dolorosa que hoje me faz estar assim, com este aperto no fundo da garganta e uma vontade de mudar o mundo nem que seja de apenas um menino.
Já tinha lido e queria comentar aqui. Incrível como a essa hora está uma criança na rua, no meio do frio. Imagino o turbilhão de sentimentos que te assaltaram, tendo em conta o perigo que ele corria e o resto... As crianças ainda são o melhor do mundo. E é tão bom saber que há quem as queira amar. **** Bjinhos
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