sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Nua e crua


Nua e crua, (curta e grossa é mais rude e tem ar de pezinho a puxar para a lama), assim é a justiça- ou a falta dela.

Ontem vi na RTP uma reportagem sobre mulheres a quem retiraram os filhos. Tinha pensado não a ver, porque a minha costela sentimentalona ia dar de si e isso não é bom para a estabilidade emocional de ninguém. Mas, sem eu dar conta, fiquei presa à imagem de mãozinhas e pezinhos de criança e cabelos entrançados com missangas coloridas. A costela lá começou a tinir e a piscar (ou qualquer coisa que uma costela possa fazer) porque há mães que entram na maternidade e saem sozinhas e bebés que nunca tiveram um colo de mãe, porque os polícias levaram de uma assentada sete filhos de uma casa, porque as comissões de proteção de menores perseguem as mães... Há pois muito amor de mãe ferido por aí, e muito amor de mãe por entregar também.

Mas depois pensei no que seria do filho da mãe alternadeira (que conscienciosamente durante a gravidez voltou costas ao alterne para passar a arrumar carros e pedir na rua) se tivesse saído da maternidade, para onde? Para a rua, o parque de estacionamento, as traseiras de um bar, uma trouxa numa barraca à espera que a noite terminasse? Chegaria o amor de mãe e a vontade de lhe dar um "lar estável" para corrigir o passado torto e o futuro mais do que incerto?

Aí lembrei-me da velha máxima da justiça: vale mais deixar um criminoso em liberdade do que por um inocente na prisão. (E como neste país se fazem as duas coisas com tanta equidade!!!!) E fiz uma máxima nova que diz que mais vale uma criança institucionalizada por engano do que uma abandonada à miséria física e social.

Pronto, nua e crua, aí está. Essa é a justiça.

PS: Também não quero saber se me criticarem e fizerem um abaixo assinado como o que fizeram para poupar ao abate um cão que matou uma criança. Porque digam o que disserem, nada, NADA vale mais do que a vida digna e segura de uma criança nem que para isso tenham que sofrer mil mães. Porque ser mãe é como a história do Rei Salomão - é saber sofrer e perder para poupar um filho. Nua e crua, também eu, seria a própria justiça.


4 comentários:

  1. Gostei muito... e assim é, ou deve ser.

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  2. Muita falta de justiça reina em Portugal. Também li essa notícia e penso que, cada vez mais, os media pecam pela parcialidade. É que fiquei com a sensação de que só conheci um dos lados da história. O amor de mãe é incomparável, claro. Mas teria essa mãe condições dignas para oferecer aos seus filhos? Não sei, não sabemos... Poderá talvez a justiça ter agido, neste caso, no melhor dos interesses das crianças (espero que sim). Antes assim do que o tremendo erro de não ter retirado as duas crianças àquela mãe que incendiou a casa propositadamente com as crianças lá dentro. A justiça é ineficiente, morosa e muito cega. Ora age e comete injustiças ora não age atempadamente, permitindo crimes gravíssimos. Quem fica sempre a perder são as crianças! Marla

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  3. É isso mesmo Marla. Este tema daria pano para mangas. Eu, que muito tenho pensado e investigado sobre isso, estou convicta de que o problema é mesmo a lentidão e a falta de especialização. Tudo o que involva crianças deve ser prioritário e os funcionários e juízes devem ter formação especial. Tal como erram ao devolver ou não retirar crianças, depois demoram anos a encaminhá-las quando estão nas instituições, às vezes anos (anos que são a VIDA da criança) à espera não sabem do quê. Mas se alei tiver que ser dura e cega, que seja só com os adultos. bjks

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